Ir a pé e de carona do Brasil até os Estados Unidos. Não lavar o pé durante os seis meses do trajeto. Participar de uma feira internacional de arte. Vender uma obra por 40 mil dólares. Foi isso que fez o artista Paulo Nazareth, como nos informa a reportagem de Mônica Bergamo, na Folha do último domingo (06/05).
O artista foi participar de uma
famosa feira de arte, a Art Basel, em Miami. Lá expôs uma obra: uma Kombi cheia
de bananas. Além disso, ficava colocando placas penduradas no pescoço e tirando
fotos com quem quisesse. Cobrava um dólar por foto. Numa das placas se lia: My
image of exotic man for sale (minha imagem de homem exótico à venda). Era essa
a sua obra mais reveladora. Porque, numa feira de arte, o que ele foi vender
não foi somente sua obra, mas principalmente sua imagem.
Se sua imagem é em si uma obra, ou
no mínimo algo vendável, é porque ela tem alguns significados, alguns
enunciados atrelados a ela. Para nos restringirmos bastante, fiquemos com o
adjetivo que o próprio artista se aplica: exótico. Segundo o dicionário
Aurélio, “exótico” significa: 1. Que não é indígena; estrangeiro. 2. Esquisito,
excêntrico, exdrúxulo, extravagante. 3.Fig.Fam. Malfeito, desajeitado. Ao que
parece, o artista poderia se encaixar em todas essas definições. A forma com
que ele se enuncia na Art Basel de Miami é como o estrangeiro, o esquisito, o
excêntrico. Em suma, o artista quer se mostrar como o “outro” e não como “mais
um”. Fica claro aqui o reforço do clichê geopolítico que diz que a América
Latina é uma coisa, a América do Norte, outra. Uma frase do artista, pinçada da
matéria de Mônica Bergamo, evidencia ainda mais isso: “Se fosse para viver nos
EUA, viveria no México; se fosse para viver em Miami só por causa da praia,
viveria no Rio”. Percebe-se nessa fala um resíduo de discurso antiamericano
típico e amplamente difundido nos anos Bush. O artista, como se vê, faz questão
de identificar-se totalmente com a América Latina e seu exotismo.
No entanto, a arte é generosa com tipos estranhos. O universo da arte é o reino dos exóticos. Na verdade, há quase uma busca pelo exótico. Cada vez mais os grandes centros mundiais da cultura (Europa, EUA) buscam contato com outras culturas, com produções artísticas de outros lugares. A própria arte brasileira vem sendo constantemente valorizada, com exposições de artistas brasileiros sendo feitas nos mais famosos museus e galerias do mundo. Cildo Meireles na Tate, Mira Schendel no MoMA, Lygia Pape na Serpentine Gallery, etc.. Ser de fora, ser estrangeiro, ser exótico, ser o outro, talvez nunca tenha feito tanto sucesso nas artes. Logo, Paulo Nazareth, o exótico, insere-se nesse contexto e consegue visibilidade, vendas e mais exposições tanto no Brasil como no exterior. Se política, econômica e socialmente a questão do “outro” ainda é problemática (vide, no próprio EUA, a preocupação crescente com a “hispanização” de algumas regiões), na arte isso não é. Na arte, o “outro” é meramente exótico, tem um charme, um diferencial, uma vivacidade desconhecida, um apelo de novidade. E isso em si já é um grande valor, se não especificamente artístico, pelo menos mercadológico.
No entanto, a arte é generosa com tipos estranhos. O universo da arte é o reino dos exóticos. Na verdade, há quase uma busca pelo exótico. Cada vez mais os grandes centros mundiais da cultura (Europa, EUA) buscam contato com outras culturas, com produções artísticas de outros lugares. A própria arte brasileira vem sendo constantemente valorizada, com exposições de artistas brasileiros sendo feitas nos mais famosos museus e galerias do mundo. Cildo Meireles na Tate, Mira Schendel no MoMA, Lygia Pape na Serpentine Gallery, etc.. Ser de fora, ser estrangeiro, ser exótico, ser o outro, talvez nunca tenha feito tanto sucesso nas artes. Logo, Paulo Nazareth, o exótico, insere-se nesse contexto e consegue visibilidade, vendas e mais exposições tanto no Brasil como no exterior. Se política, econômica e socialmente a questão do “outro” ainda é problemática (vide, no próprio EUA, a preocupação crescente com a “hispanização” de algumas regiões), na arte isso não é. Na arte, o “outro” é meramente exótico, tem um charme, um diferencial, uma vivacidade desconhecida, um apelo de novidade. E isso em si já é um grande valor, se não especificamente artístico, pelo menos mercadológico.
Paulo Nazareth constrói sua imagem muito bem. Tem uma história de vida muito interessante e propostas artísticas no mínimo curiosas. Isso ajuda a criar a aura de alguém que, do ponto de vista social, é visto como um andarilho, pobre, brasileiro, latino-americano, mas que como artista, freqüenta as melhores feiras de arte, tem muitas exposições a caminho, um livro sobre ele a ser lançado, elogios da crítica. Um paradoxo, sem dúvida. E uma mostra de como o “outro”, na arte, não demora a se tornar “mais um”.