quarta-feira, 9 de maio de 2012

Paulo Nazareth, o exótico


Ir a pé e de carona do Brasil até os Estados Unidos. Não lavar o pé durante os seis meses do trajeto. Participar de uma feira internacional de arte. Vender uma obra por 40 mil dólares. Foi isso que fez o artista Paulo Nazareth, como nos informa a reportagem de Mônica Bergamo, na Folha do último domingo (06/05).

O artista foi participar de uma famosa feira de arte, a Art Basel, em Miami. Lá expôs uma obra: uma Kombi cheia de bananas. Além disso, ficava colocando placas penduradas no pescoço e tirando fotos com quem quisesse. Cobrava um dólar por foto. Numa das placas se lia: My image of exotic man for sale (minha imagem de homem exótico à venda). Era essa a sua obra mais reveladora. Porque, numa feira de arte, o que ele foi vender não foi somente sua obra, mas principalmente sua imagem.

Se sua imagem é em si uma obra, ou no mínimo algo vendável, é porque ela tem alguns significados, alguns enunciados atrelados a ela. Para nos restringirmos bastante, fiquemos com o adjetivo que o próprio artista se aplica: exótico. Segundo o dicionário Aurélio, “exótico” significa: 1. Que não é indígena; estrangeiro. 2. Esquisito, excêntrico, exdrúxulo, extravagante. 3.Fig.Fam. Malfeito, desajeitado. Ao que parece, o artista poderia se encaixar em todas essas definições. A forma com que ele se enuncia na Art Basel de Miami é como o estrangeiro, o esquisito, o excêntrico. Em suma, o artista quer se mostrar como o “outro” e não como “mais um”. Fica claro aqui o reforço do clichê geopolítico que diz que a América Latina é uma coisa, a América do Norte, outra. Uma frase do artista, pinçada da matéria de Mônica Bergamo, evidencia ainda mais isso: “Se fosse para viver nos EUA, viveria no México; se fosse para viver em Miami só por causa da praia, viveria no Rio”. Percebe-se nessa fala um resíduo de discurso antiamericano típico e amplamente difundido nos anos Bush. O artista, como se vê, faz questão de identificar-se totalmente com a América Latina e seu exotismo.

 No entanto, a arte é generosa com tipos estranhos. O universo da arte é o reino dos exóticos. Na verdade, há quase uma busca pelo exótico. Cada vez mais os grandes centros mundiais da cultura (Europa, EUA) buscam contato com outras culturas, com produções artísticas de outros lugares. A própria arte brasileira vem sendo constantemente valorizada, com exposições de artistas brasileiros sendo feitas nos mais famosos museus e galerias do mundo. Cildo Meireles na Tate, Mira Schendel no MoMA, Lygia Pape na Serpentine Gallery, etc.. Ser de fora, ser estrangeiro, ser exótico, ser o outro, talvez nunca tenha feito tanto sucesso nas artes. Logo, Paulo Nazareth, o exótico, insere-se nesse contexto e consegue visibilidade, vendas e mais exposições tanto no Brasil como no exterior. Se política, econômica e socialmente a questão do “outro” ainda é problemática (vide, no próprio EUA, a preocupação crescente com a “hispanização” de algumas regiões), na arte isso não é. Na arte, o “outro” é meramente exótico, tem um charme, um diferencial, uma vivacidade desconhecida, um apelo de novidade. E isso em si já é um grande valor, se não especificamente artístico, pelo menos mercadológico.

 Paulo Nazareth constrói sua imagem muito bem. Tem uma história de vida muito interessante e propostas artísticas no mínimo curiosas. Isso ajuda a criar a aura de alguém que, do ponto de vista social, é visto como um andarilho, pobre, brasileiro, latino-americano, mas que como artista, freqüenta as melhores feiras de arte, tem muitas exposições a caminho, um livro sobre ele a ser lançado, elogios da crítica. Um paradoxo, sem dúvida. E uma mostra de como o “outro”, na arte, não demora a se tornar “mais um”.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Wolfgang Tillmans no MAM: a estética da curadoria.

O título da exposição de Wolfgang Tillmans, artista alemão cuja obra está atualmente em cartaz no MAM/SP, é simplesmente seu nome. Não há sequer texto de parede, como vemos normalmente. Ou seja, de saída, não temos uma idéia ordenadora da exposição. O que parece estranho numa que conta com quatro curadores. Essa impressão, evidentemente, é intencional. Os curadores não quiseram enxergar a obra de Tillmans sob uma única lente, não quiseram dar a exposição uma linha unívoca de pensamento. Ao contrário, optaram por uma disposição de trabalhos mais livre, embora não menos sugestiva.
Ao percorrermos a exposição, percebemos inícios de discussões, como as fotos alternadas de cenas urbanas e paisagens da primeira sala, que parecem formar um núcleo temático. Mas logo essa impressão se desfaz, com a inclusão de fotos de imagens abstratas, papéis coloridos dobrados, árvores em preto e branco, céus estrelados, soldados, cenas homossexuais, de festas, retratos, etc... Ao longo da exposição, esses núcleos temáticos surgem e desaparecem rapidamente. Obras que parecem pertencer à mesma série são vistas em lugares distantes umas das outras na exposição. Isso reforça a idéia de desordem sugerida pela curadoria. Parece que as obras de Tillmans foram aspergidas sobre o espaço e ficaram como caíram.
É notório que esse tipo de curadoria, seja ela idéia dos curadores ou do próprio artista, chama a atenção para si. Pois, embora as fotos de Tillmans tenham valor individualmente, é no contato com as outras que elas retiram sua máxima força. O inusitado de colocar retratos pequenos próximos de grandes abstrações, de utilizar não só a frente das paredes móveis mas também os lados para expor trabalhos, de colocar trabalhos nas portas de acesso a outras aéreas do museu, como biblioteca e a curadoria, tudo confere um ar ao mesmo tempo caótico e vivo. Talvez o que una toda a exposição seja o fato de que os trabalhos, por parecerem dispersos, remetam a outros similares. Uma foto de um vaso com uma planta vista quase no fim da exposição nos remete a outra, vista na primeira sala. Assim, vamos recuperando pedaços da exposição a cada passo que damos.

Há, sem dúvida, um jogo entre o todo e a parte. As obras, embora existentes por si mesmas, fazem parte do todo que é a exposição. São não tanto individualidades, mas elementos constitutivos dessa espécie de colcha de retalhos que vai se formando durante a visita. As várias facetas de Wolfgang Tillmans aparecem aos fragmentos, que o espectador vai coletando ao longo da exposição. Como organização curatorial, essa estratégia funciona bem. Deixa o espectador sempre atento e intrigado, e o faz rememorar obras já vistas a cada sala. A exposição vai se adensando a cada passo, e sua aparente falta de organização vai fazendo mais sentido. Além de expor pela primeira vez a obra do artista alemão no Brasil, a exposição é um bom exercício de reflexão sobre curadoria e que consegue, ao final, bons resultados.

sábado, 7 de abril de 2012

Raul infinito

Zeca Baleiro, em sua música Toca Raul!, comenta sobre esse mantra proferido em qualquer barzinho e rodinha de violão. Sempre tem um que insiste em pedir uma música do cantor baiano, morto há mais de vinte anos. A razão desse fascínio, desse verdadeiro culto que se formou em torno de Raul Seixas, pode ser um pouco compreendido no documentário de Walter Carvalho, Raul: o início, o fim e o meio.

            Como muitos adolescentes da década de 50, Raul queria ser Elvis Presley. O impacto da descoberta do rock daria ao jovem Raul o norte de toda a sua vida. Seria cantor. Fundou um clube de rock ainda na adolescência, formou bandas e trabalhou como produtor musical. Depois, conseguiu fazer seu primeiro disco por uma gravadora. Daí, estourou e virou um cantor terrivelmente popular. Terrivelmente porque, como dizem alguns de seus amigos, Raul acreditou na imagem que faziam dele. Criou um personagem para si, a do doidão, do maluco beleza, o que nem sempre foi algo positivo.

O que fica claro no documentário é que a atração que Raul exercia sobre as pessoas provinha de sua enorme inquietação. Desde menino, não se contentava com os limites impostos pelas contingências da sua vida. Queria saber sempre mais, buscar novas referências. Nessa ânsia por informações, enveredou por caminhos obscuros, como seitas ocultistas, drogas, sociedades alternativas. Buscou nos parceiros, como Paulo Coelho, o estímulo para suas incursões em terrenos desconhecidos. E toda essa inquietação era vertida em música. E na música conseguia algo raro: misturar tudo sem parecer uma salada desconexa, sem parecer algo pretensamente inovador e refinado. Ao contrário, fazia questão de ser simples e direto. Fazia questão de se comunicar com todos. Fazia questão de ser popular.

            Rock, baião, bolero, música sertaneja, tudo entrava no liquidificador de Raul Seixas, na melhor tradição antropofágica brasileira. Deglutindo tudo, misturando som e discurso ácido, bem humorado e crítico, Raul conseguia ser a voz mais dissonante e radical em plena ditadura militar. Como Nelson Motta diz no filme, cantar Sociedade Alternativa numa época em que a sociedade deveria seguir as imposições governamentais, sob pena de exílios e prisões, era algo muito radical. Raul conseguiu ser a voz do povo naquele momento.

            E, ao que parece,continua sendo.  Não temos hoje no Brasil ninguém que tenha a inquietação, o humor, a inteligência, a acidez, o ar provocador e as contradições ambulantes de Raul. Talvez Lobão seja quem mais se aproxime desse tipo. Só que Lobão não tem a mesma popularidade de Raul, nem a mesma capacidade de atingir todas as camadas sociais com suas músicas e seu discurso.  Raul virou uma lenda, um mito, um tipo de santo, um profeta. Cultuado por legiões de fiéis que se identificam com suas palavras, que as seguem como um evangelho. Mas, fora do fanatismo, Raul ainda nos diz algo. Ele ainda é relevante, em suas músicas e em seu exemplo. E é por isso que continua a ser pedido, tocado, ouvido, louvado. Raul, como Elvis, morreu. Mas, tal qual seu ídolo, sua influência é interminável. Raul, enfim, é infinito.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Jac Leirner: algo de arte

Coletar, acumular, ordenar. Por esses três verbos se explica um pouco da poética da artista Jac Leirner, cuja retrospectiva de sua obra fica até o dia 26 de Fevereiro na Estação Pinacoteca.

No primeiro dos atos, o coletar, está o fundamento da arte de Jac Leirner. Ela lida com materiais já existentes no mundo, materiais triviais. E, cumpre dizer, poucos materiais, usados repetidas vezes. Adesivos, sacolas plásticas, cédulas de dinheiro,cartões de visita, maços de cigarro (e aquilo que o compõe: plástico, papel laminado, preço), tapetes ,sick-bags, guardanapos e cinzeiros de avião e mais um ou outro material. O ato de coletar esses objetos deve ter algo de pessoal. Certamente não é por acaso que a artista prefere sacolas de plástico a papel higiênico, caixas de papelão ou latas de cerveja. Se não conseguimos saber com certeza a razão dessa preferência, o que nos importa é o ato. Coleta-se algo para guardá-lo, estudá-lo, utilizá-lo. Jac Leirner faz as três coisas. De cada coisa que coleta, busca identificar especificidades que, quando expostas, ganham relevo. Dos objetos comuns, descartáveis e perecíveis tenta retirar algum motivo sedutor, digno de ser eternizado pelo verniz da arte.

O segundo ato, o acumular, pressupõe outro aspecto importante da obra da artista: o tempo. O acúmulo se dá no tempo, da coleta constante do mesmo tipo de objeto ao longo dos anos. Cada um de seus trabalhos inclui em si o tempo. Tempo de coletar e acumular esses objetos. Exercício diligente de uma vida. Curiosamente, há uma obra na exposição (além das aquarelas da artista) que foge a esta regra: a instalação “Hip-Hop”. Nela, temos uma sala com adesivos de várias formas e cores dispostos linearmente, o que exige que o espectador se movimente pelo espaço para poder ver toda a obra. Aqui, o tempo está mais na apreensão da obra do que na sua confecção. De qualquer forma, o tempo está aí, presente como sempre.

O terceiro ato, o ordenar, dá conta de transmitir ao espectador aquilo que a artista vê nesses objetos. Uma parede cheia de sacolas de plástico cria ritmos cromáticos e formais. Aos poucos é que vamos descobrindo as marcas das lojas inscritas nelas. Igualmente, num corredor de vidro cheio de adesivos, as cores e formas são o que primeiro vemos. Só depois percebemos do que tratam esses adesivos. Duchamp, e posteriormente a Pop Art, já nos ensinaram a ver objetos comuns fora de sua funcionalidade. Nos trabalhos de Jac Leirner, a ordenação serial e cumulativa faz com que a funcionalidade desses objetos seja esquecida e vejamos fundamentalmente seu aspecto estético. As sacolas se transformam em formas e cores, os plásticos dos maços de cigarro são ar e transparência, as cédulas de dinheiro são composições geométricas.

Para além das significações que cada um desses elementos possa ter, mais importante é o procedimento que a artista usa para transformá-los em obras de arte. Coleta, acumulação e ordenação injetam nos objetos interesse, temporalidade e vida. Vida que, se de fato esses objetos triviais têm, só pode vir da convivência prolongada com a artista, do seu olhar e seu manuseio. Daí porque, em objetos tão frios e descartáveis, parece surgir esse algo de arte.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A favor de Rafinha Bastos

O comediante Rafinha Bastos vem sendo metralhado de críticas por uma piada feita no CQC, programa que co-apresenta na TV Bandeirantes, com referência a cantora Wanessa Camargo. A piada? Ao comentário do apresentador Marcelo Tas a respeito da beleza da cantora durante a gravidez, Rafinhas Bastos replicou: “Comeria ela e o bebê”. Bastou para que uma enxurrada de críticas ao humorista fosse feita, incluindo a capa da Veja São Paulo, e o seu subsequente afastamento do programa.

A questão a ser feita é: por que uma piada pode gerar tanta polêmica? Mais: é justo tantas críticas ao humorista por conta de uma piada? Vejamos.

Ao que parece, o que choca as pessoas no comentário (a partir de agora utilizarei "comentário" ao invés de "piada", porque alguns não a consideraram como tal) de Rafinha Bastos não é a manifestação explícita do seu desejo sexual em relação à Wanessa Camargo (que embora possa ser grosseira, tem um fundo elogioso a cantora). O que choca é o que se segue, ou seja, a sugestão de que o bebê que Wanessa espera também estaria incluído nesse desejo. Há aí uma sugestão de pedofilia, e ainda por cima de um tipo muito especial e, ao que me parece, inédito: a pedofilia intra-uterina. Ora, pedofilia é sem dúvida um dos crimes mais torpes que alguém pode cometer. Daí o horror a um comentário que sugira tal crime.

No entanto, para além do bom ou mau gosto do comentário, é preciso ver em que contexto ele foi dito. O CQC é um programa de humor. Rafinha Bastos é um comediante. O comentário foi feito publicamente, diante das câmeras, e não foi flagrado escusamente enquanto o comediante confessava suas sórdidas opiniões, como foi o caso de Boris Cassoy há algum tempo atrás, flagrado tecendo comentários pouco elogiosos sobre os lixeiros. Boris Cassoy safou-se com um pedido público de desculpas. Rafinhas Bastos foi afastado do seu programa.

A decisão de afastar Rafinha Bastos do programa CQC tem mais de interesse comercial do que repreensão conteudística. É por medo de perder audiência e patrocínio que a direção do programa o afastou. Mas, se a audiência e os patrocinadores se ofendem com um comentário feito num programa de humor por um humorista, percebemos o quanto temos dificuldade de separar o sério do tolo, a apologia da piada. Todos temos direito de gostar ou não do que quer que seja. Isso não significa que aquilo de que não gostamos deva ser arbitrariamente suprimido. Especialmente se for algo feito dentro de um contexto abertamente humorístico. Acusam Rafinha Bastos de ter sido grosseiro, irresponsável, tolo, de ferir os bons costumes, a boa conduta, os bons valores. Ora, quem deve provir a sociedade de bons costumes, boa conduta, bons valores é a família, a escola, a governo, a imprensa dita “séria”, etc... O humor deve, justamente, brincar com esses valores, afrontá-los, não para substituí-los, mas para mostrar o quão ridículo todos nós somos.

Por mais baixa ou grosseira que uma piada seja, ela pelo menos está ali, na nossa cara, explicitamente, pronta para que a aceitemos ou a rechacemos, para que achemos graça dela ou não. Muito pior são jornalistas, políticos, artistas, etc..., que, dóceis e moralistas em público, privadamente chafurdam em poças de mesquinhez, preconceitos, ilegalidades e intolerância. Duchamp, esse grande cínico e provocador das artes, já dizia: “A inconseqüência é a fonte da tolerância”. Se fôssemos tão inconseqüentes quanto Rafinha Bastos, talvez fôssemos mais tolerantes com nossas diferenças. Se toleramos generosamente a doçura de Wanessa Camargo, devemos também tolerar o humor ácido de Rafinha Bastos. Esse, e não o apedrejamento, seria um bom exercício para todos nós fazermos.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um outro lugar, o mesmo dilema

A exposição Um outro lugar, atualmente no MAM/SP, procura encontrar na arte pequenas subversões a ordem estabelecida do mundo. De acordo com o texto da curadora e da revista MODERNOMAM do próprio museu, o mundo atual é autoritário e impõe sua autoridade em toda parte. As obras selecionadas pela curadora Luisa Duarte procuram questionar essa autoridade, sugerindo novas possibilidades de ordenamento e atuação no mundo.

Na exposição, percebemos o uso de uma estratégia de curadorias de arte contemporânea que é o uso de legendas explicativas das obras. Ou seja, a cada obra corresponde uma legenda que contém não apenas o título, dados e autor da obra, como também uma pequena explicação dela, seu significado. Isso evidencia a importância que o discurso tem na arte contemporânea, muitas vezes sendo ele o elemento fundamental de significação. Assim, o que parece ser sugerido é uma espécie de retroalimentação entre objeto e discurso. O objeto ilustra o discurso e este dá substância àquele. Há, portanto, um claro viés conceitual nessas obras, em que cada artista procura tocar num ponto que considera relevante ou problemático de nossa sociedade e de nosso tempo.

Essa forma de expor as obras gera um certo paradoxo: por um lado, estabelece uma mediação entre espectador e obra; por outro, limita as possibilidades de interpretação. É difícil mediar sem induzir ou limitar. Naturalmente, há obras que necessitam menos de mediação do que outras. As obras de Sara Ramo, por exemplo, são mais diretas e imediatas do que os trabalhos de Marilá Dardot ou Carla Zaccagnini, em que a explicação das intenções e do processo das artistas ajudam a interpretá-los. De qualquer forma, mais do que dar um significado a cada obra, as legendas parecem também querer a todo instante justificar a inclusão dessas obras na exposição.

Para além da maior ou menor pertinência da discussão sugerida pela curadora, a exposição serve para refletirmos o modo de se expor arte contemporânea. Privilegia-se seu aspecto conceitual ou não? Coloca-se legendas explicativas em todas as obras ou só em algumas? Deixa-se a mediação entre espectador e obra a cargo exclusivamente do educativo do museu? Essas questões estão presentes em todas as exposições de arte contemporânea, e cada curador as resolve de uma maneira. São dificuldades impostas pelo próprio caráter discursivo da arte contemporânea que, no entanto, no mais das vezes oculta esse discurso do espectador. Assim, este passa a ser uma espécie de caçador de sentidos, cujo objetivo último é dar algum àquilo que vê. Esse jogo pode ser estimulante por vezes, por vezes árido, e por vezes inexistente, quando já nos deparamos com discursos dados pela própria curadoria sobre as obras expostas.

Um outro lugar pretende mostrar pequenas subversões às várias ordens estabelecidas em nosso cotidiano, mas não consegue subverter as imposições e exigências da arte contemporânea. Não que isso seja um defeito em si, mas certamente atesta a dificuldade que ainda existe em se tratar e expor arte contemporânea.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

um poema

Café sobre a mesa

café sobre a mesa
alguns guardanapos
usados, o fim

cinematográfico
imagem-recado
sequer nem sutil
café, conta, fim
de papo, obrigado
foi ótimo, abraço
o fim, sim, o fim
chega sempre assim
com pinta de atraso
ou em alguns casos
excessivamente
rápido (tal jovens
quando cedo morrem
ou a ejaculação
precoce), café
guardanapos usados
sobre a mesa, o fim

cujo tipo último
é o esquecimento
só o esquecimento

existe
existe

o que cabe nele
e isso é tudo